sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Um novo mundo com qualidade de vida é possível, diz filósofo em "Ocuppy Wall Street"

Reproduzo o texto do site Carta Maior. Importantíssimo. Concordo 100% com o conteúdo e está 100% em consonância com os valores, crenças e objetivos do Blog Perspectiva Crítica. O texto me foi enviado pela minha professora de italiano Daniela Marques. Obrigado por todos os leitores, Dani.

Texto:

"O filósofo e escritor esloveno Slavoj Zizek visitou a acampamento do movimento Ocupar Wall Street, no parque Zuccotti, em Nova York e falou aos manifestantes. “Estamos testemunhando como o sistema está se autodestruindo. "Quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou". Leia a íntegra do pronunciamento de Zizek.
Slavoj Zizek
Durante o crash financeiro de 2008, foi destruída mais propriedade privada, ganha com dificuldades, do que se todos nós aqui estivéssemos a destruí-la dia e noite durante semanas. Dizem que somos sonhadores, mas os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas podem continuar indefinidamente da mesma forma.

Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.

Todos conhecemos a cena clássica do desenho animado: o coiote chega à beira do precipício, e continua a andar, ignorando o fato de que não há nada por baixo dele. Somente quando olha para baixo e toma consciência de que não há nada, cai. É isto que estamos fazendo aqui.

Estamos a dizer aos rapazes de Wall Street: “hey, olhem para baixo!”

Em abril de 2011, o governo chinês proibiu, na TV, nos filmes e em romances, todas as histórias que falassem em realidade alternativa ou viagens no tempo. É um bom sinal para a China. Significa que as pessoas ainda sonham com alternativas, e por isso é preciso proibir este sonho. Aqui, não pensamos em proibições. Porque o sistema dominante tem oprimido até a nossa capacidade de sonhar.

Vejam os filmes a que assistimos o tempo todo. É fácil imaginar o fim do mundo, um asteróide destruir toda a vida e assim por diante. Mas não se pode imaginar o fim do capitalismo. O que estamos, então, a fazer aqui?

Deixem-me contar uma piada maravilhosa dos velhos tempos comunistas. Um fulano da Alemanha Oriental foi mandado para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que o seu correio seria lido pelos censores, por isso disse aos amigos: “Vamos estabelecer um código. Se receberem uma carta minha escrita em tinta azul, será verdade o que estiver escrito; se estiver escrita em tinta vermelha, será falso”. Passado um mês, os amigos recebem uma primeira carta toda escrita em tinta azul. Dizia: “Tudo é maravilhoso aqui, as lojas estão cheias de boa comida, os cinemas exibem bons filmes do ocidente, os apartamentos são grandes e luxuosos, a única coisa que não se consegue comprar é tinta vermelha.”

É assim que vivemos – temos todas as liberdades que queremos, mas falta-nos a tinta vermelha, a linguagem para articular a nossa ausência de liberdade. A forma como nos ensinam a falar sobre a guerra, a liberdade, o terrorismo e assim por diante, falsifica a liberdade. E é isso que estamos a fazer aqui: dando tinta vermelha a todos nós.

Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.

Lembrem-se que a nossa mensagem principal é: temos de pensar em alternativas. A regra quebrou-se. Não vivemos no melhor mundo possível, mas há um longo caminho pela frente – estamos confrontados com questões realmente difíceis. Sabemos o que não queremos. Mas o que queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes queremos?

Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.

Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. Depois de fazer outsourcing ao trabalho e à tortura, depois de as agências matrimoniais fazerem outsourcing da nossa vida amorosa, permitimos que até o nosso envolvimento político seja alvo de outsourcing. Queremos ele de volta.

Não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje os comunistas são os capitalistas mais eficientes e implacáveis. Na China de hoje, temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico do que o vosso capitalismo americano. Mas ele não precisa de democracia. O que significa que, quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou.

A mudança é possível. O que é que consideramos possível hoje? Basta seguir os meios de comunicação. Por um lado, na tecnologia e na sexualidade tudo parece ser possível. É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética. Pode-se ter sexo com animais ou qualquer outra coisa. Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.

Talvez devêssemos definir as nossas prioridades nesta questão. Não queremos um padrão de vida mais alto – queremos um melhor padrão de vida. O único sentido em que somos comunistas é que nos preocupamos com os bens comuns. Os bens comuns da natureza, os bens comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual, os bens comuns da biogenética. Por isto e só por isto devemos lutar.

O comunismo falhou totalmente, mas o problema dos bens comuns permanece. Eles dizem-nos que não somos americanos, mas temos de lembrar uma coisa aos fundamentalistas conservadores, que afirmam que eles é que são realmente americanos. O que é o cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um pelo outro, e que só têm a sua própria liberdade e responsabilidade para este amor. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui, agora, e lá em Wall Street estão os pagãos que adoram ídolos blasfemos.

Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net"



Acesse o original em http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18669

3 comentários:

  1. mario, estamos rumando para uma sociedade totalitaria, corrupta e formada por castas. o fosso entre ricos e pobres so aumenta.

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  2. Eles tentam isso mesmo Marcelo. Com a privatização de tudo o que for possível, com o fim dos serviços públicos de saúde, educação, previdência social, as grandes empresas, os bancos e sua mídia tentam criar um mundo em que tudo deve ser pago pelo cidadão, em que sempre haja desempregados, em que os juros públicos sejam sempre o máximo, em que o salário mínimo seja sempre indigente, e que o consumismo e o materialismos sejam sempre a razão de ser e o norte da sociedade, dos jovens e de toda a sociedade. Não se fala em família, não se fala em solidariedade, não se fala em amizade e não se fala em amor ao próximo. Os pais querem dar os presentes mais caros a seus filhos quando a única coisa que eles querem é atenção, carinho e limites. Até parece que uma criança de um ano ou quatro ou cinco faz diferença entre briquedo de R$350,00 e um de R$19,50. Fizeram a sociedade acreditar que mais vale um carro novo do ano a cada ano do que viajar com seus filhos ou a casa própria. Não se dá valor a ninguém pelo que ela é, mas só pelo que ela tem. É triste.
    Mas há algo novo no ar. o ocaso do capitalismo no norte, a partir da desregulamentação de mercado tão querida dos bancos, e a falta evidente de assitência social aos americanos está fazendo com que consigam enxergar a realidade do buraco para o qual estávamos caminhando.
    Cabe a nós fazermos nossas vozes serem ouvidas. Cabe a nós dizermos que não queremos esse mundo em que você além de pagar imposto, tem que pagar plano de saúde para ter acesso à assistência básica de saúde ou de educação, obrigações precípuas do Estado.
    Reclamavam e publicavam corrupções de funcionários públicos em total desproporção com o número de funcionários honestos que são a infinita maioria, e convenceram parte da sociedade que tinha tudo de ser privatizado... Ongs, Organizações sociais... e agora vemos o escândalo das corrupções e desvio de verbas através de ONGs... a corrupção pública é menor e mais facilmebnte fiscalizável do que a privada.
    Mas toda a população na Europa se levanta. E a mídia não publica. 100 cidades americanas se levantam, mas a mídia não publica. Nossa inflação desce desde abril de 2011, e a mídia publica pressão inflacionária e ontem ou hoje publicou que "agora o mercado prevê baixa inflacionária"... então o Banco Central não estava errado em baixar juros? Não. Mas o BC foi contra o mercado e baixou o juros. Agora, que é evidente o erro do mercado, os jornais publicam a realidade.
    É isso, minha esperança está nas pessoas. Elas estão vendo. Elas estão se conscientizando. Elas estão questionando. E elas querem respostas. Se a mídia não der, elas criarão.. e a mídia terá de publicar.
    Estamos passando por um momento de mudanças, cara. Estou ansioso por ver os resultados e como você não me omito. Questiono, busco respostas e publico.
    abs

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  3. Depois da grande mídia insistir que ainflação estava descontrolada, apesar deste Blog apontar para o controle desde abril de 2011, veja a notícia de que "agora o mercado prevê baixa de inflação" em http://oglobo.globo.com/economia/mat/2011/10/24/apos-previa-do-ipca-de-outubro-mercado-espera-inflacao-no-teto-da-meta-menor-crescimento-925640313.asp
    Nossa mídia é ridícula, mentirosa, mesquinha, corrupta e enganadora, além de totalmente descomprometida com o bem da população. Mas é muito bem comprometida com interesse de banqueiros. Os Blogs são muito mais democráticos e verdadeiros, além de tudo o que publicam ser facilmente verificável e ainda ficar pra sempre a fácil acesso.
    Vai fazer pesquisa de artigos antigos nos sites de jornais de grande circulação. Se não tiver o endereço certo da matéria, um abraço.
    A mídia hoje faz o trabalho da Igreja na Idade Média: defende o status quo e cria e propagandeia a verdade. Temos de impulsioná-la em sentido construtivo e isso só com crítica.

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